A Estante de Livros

Essa aconteceu no “Café com Letras”, uma livraria em Brasília que tinha uma área destinada a café, muito comum hoje em dia, mas ainda novidade nos anos 90. Era uma noite agradável e eu estava neste local no lançamento de um livro (não me recordo do nome do escritor, desculpe). Como sempre fui interessado em literatura, tratei de observar o acervo do lugar. Foi então que vi uma coletânea de contos russos e me interessei pela obra.

Tentei puxar o livro, mas o maldito não saia da estante. Desde esse dia aprendi uma lição: se um livro não quer sair, deixe-o lá. É Deus dizendo que você não deve pegá-lo. No entanto, eu fui teimoso e forcei até o livro sair. O problema era que a estante era daquele estilo de móveis comuns em lojas famosas: caro e vagabundo. Ao puxar o livro, ele realmente veio, mas trouxe junto todos os outros.

A cena foi triste. Todas as pessoas pararam de conversar, o quarteto de cordas parou de tocar. O silêncio era absoluto. Toda a atenção era voltada para mim. Quem me dera ter esse nível de atenção em minhas aulas ou palestras. Todos os livros da estante estavam no chão, à excessão do que eu puxei: este parado em minha mão.

Eu não sabia o que fazer. Uma luz então veio até mim e segui um conselho de meu sábio pai: “se uma situação está muito ruim, só tem uma forma de sair dela: torná-la ainda pior”. pensando nisso, resolvi me fingir de artista performático louco e gritei algo como “a arte no mundo está falida”. Joguei o livro de contos russos no chão e saí, sob os olhares perplexos dos presentes. Eu nunca mais voltei àquele local.

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