Interrogado pelo FBI

Eu estava em uma viagem a trabalho em Boston/MA (minha cidade favorita nos EUA). Certa noite no hotel, eu estava com fome, mas sem disposição para sair e procurar algum lugar para jantar. Resolvi então pedir uma pizza pelo telefone. Após muito procurar uma pizzaria que entregasse àquela hora da noite, liguei e pedi uma pizza de queijo. Ao passar o endereço, o atendente informou que no hotel não permitiriam que o entregador subisse ao meu quarto. Combinamos então que em cerca de 30 minutos eu desceria à recepção para receber meu jantar.

Passada a meia-hora acertada, peguei o dinheiro, calcei um chinelo e abri a porta do quarto. não posso descrever o tamanho da minha surpresa ao ver que o quarto exatamente em frente ao meu estava interditado com as típicas faixas amarelas de cenas do crime que tanto são vistas em filmes americanos. Ao olhar para o lado vi que algumas pessoas com jaquetas do FBI. Um estava conversando com a pessoa do quarto ao lado do meu e outros dois colhiam evidências.

O agente veio então em minha direção. Aquela era minha primeira viagem aos Estados Unidos e eu fiquei nervoso pensando que, azarado como sou, poderia ser indiciado pelo crime que eu nem sabia ainda qual era. Como era o quarto em frente ao meu, as chances de acharem alguma impressão digital minha na porta do quarto em cima eram muito grandes. O complexo de estrangeiro também falou alto e pensei que se não achassem o culpado poderia sobrar para mim.

Naquele momento tive certeza de que eu realmente estava apto a me comunicar em inglês com fluência em qualquer situação. Me foram feitas várias perguntas, meus documentos, passaporte e visto foram checados e tive que deixar um cartão de visitas com o agente, além de prometer telefonar para o mesmo se soubesse de mais alguma coisa. Destaco aqui duas perguntas que me foram feitas: se eu havia escutado algum barulho de arma de fogo e a que horas havia chegado ao hotel. Bem, eu realmente não havia escutado nada, acho que pela TV que estava com o volume alto ou mesmo porque o crime deve ter ocorrido no momento em que eu tomava banho, onde o chuveiro e exaustor juntos tornaram impossível ouvir qualquer som exterior. Eu sou péssimo em lembrar a que horas aconteceu algum fato, então não estava certo de quando havia chegado ao hotel e chutei um horário qualquer: 6:20.

Terminado o interrogatório eu desci até o saguão. Obviamente o entregador não estava lá me esperando. Por outro lado, dezenas de policiais estavam no local, quase todos os hóspedes também. Me informei com o funcionário do hotel e ele me disse que haviam bloqueado a rua e que minha pizza provavelmente estaria após a barreira policial. Ao sair do hotel me senti personagem de um episódio de CSI ou Arquivo X. Dois caminhões imensos do FBI estavam do lado de fora, cachorros farejavam a área e vários policiais cuidavam da segurança. O hotel ficava no alto de uma pequena colina, então fui caminhando pelo asfalto de modo a finalmente encontrar minha pizza. Um policial me interrompeu dizendo que eu não poderia passar por aquela área, pois uma coleta de evidências estava em andamento. Expliquei meu caso e ele me disse para descer pela colina, no meio da grama.

Fiz o que me foi recomendado e pouco antes de chegar na parte de baixo um outro policial veio correndo em minha direção achando que eu queria fugir do local. Expliquei novamente a situação e fui liberado. Atrás da barreira estavam vários curiosos, jornalistas (que me chamavam para uma entrevista) e o entregador da pizza, que só não foi embora porque estava curioso sobre o que havia acontecido. Paguei e voltei ao quarto com minha refeição gelada.

Meu chefe me ligou e disse que meu hotel estava na Fox News. Liguei a TV e assiti a reportagem. Não falaram quem foi assassinado ou quem cometeu o crime, mas hóspedes disseram que ouviram tiros por volta das 6:20. Ao ouvir isso meu coração disparou: essa era exatamente a hora que eu disse que havia retornado. Aquela foi uma noite em que fiquei bem ansioso. Por sorte li no jornal da manhã que a vítima era um criminoso procurado por todo país e que foi assassinado pelo agente do FBI que foi prendê-lo. A investigação era apenas para saber se havia a possibilidade de prender o criminoso sem matá-lo. Bom, no final não foi nada, mas passei um grande susto.

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