O Sequestro

Essa história é real, apesar de parecer tirada de roteiro de filme. Aconteceu entre 1996 e 1997 (não me lembro com exatidío) nos primeiros semestres da faculdade de Medicina. Eu sempre fui conhecido entre meus amigos por topar executar os planos mais mirabolantes e malucos e desta vez não foi diferente.

Uma amiga nossa, Carol (nome fictício) faria aniversário em breve e sua melhor amiga, Silvia (nome fictício), pediu minha ajuda para planejarmos uma festa surpresa inesquecível. Depois de muitas ideias simples e sem tanta emoção, ela brincou dizendo que deveríamos sequestrá-la. O problema foi que eu gostei a proposta e assim partimos para pensar no plano que deveríamos executar.

O combinado foi que Silvia fingiria ter brigado com o namorado e assim chamaria Carol para um passeio de carro, onde elas pudessem conversar. Eu deveria reunir outras três pessoas. Havia um local combinado onde Silvia pararia o carro. Nós estaríamos escondidos atrás de um matagal, com armas de brinquedo e máscaras. No momento certo, sairíamos do esconderijo e anunciaríamos o sequestro. As duas seriam então encapuzadas e nós a levaríamos rumo ao local da festa, onde todos os amigos estariam esperando em silêncio.

No dia combinado, uma das pessoas que iriam ajudar desistiu. Ele alegou estar com medo do plano dar errado e nós sermos presos. Um dos “sequestradores” saiu e voltou com um primo: um sujeito com cara de bandido que estava animado em nos ajudar.

Uma hora antes do que foi acertado, nós já estávamos no local marcado, com meia-calças no rosto e armas de plástico, prontos para dar o bote. Foi então que chegou o carro delas. Tudo ia bem até então. Demos o bote, encapuzamos as duas e saimos do local em alta velocidade, fazendo com que o sequestro parecesse real.

Quando lembro deste dia, penso em uma verdade no meio em que trabalho: “programadores não sabem testar”. Pois bem, eu havia esquecido um detalhe básico: testar o caminho do local da abordagem até o endereço da festa. O problema era que para chegarmos ao nosso destino final, nós precisamos passar pela mais movimentada e engarrafada rua da cidade em plena sexta-feira à noite.

Imagine a cena: todas as pessoas nas calçadas, em frente aos bares, vendo passar do lado um carro com quatro homens armados e com máscaras e duas mulheres encapuzadas e chorando. Ficamos todos calados, apreensivos. Foi preciso que parássemos em um semáforo e ao olhar para o lado percebemos que um carro da polícia estava bem ao nosso lado. Neste instante torcemos para que os policiais não olhassem para o lado. Se eles fizessem isso, seria o nosso fim. O tal semáforo não abria e cada segundo ali demorava uma eternidade.

Por sorte, o semáforo finalmente abriu e não fomos notados pela “atenta” polícia. As pessoas que a tudo viam, tiveram medo de nos denunciar e, assim, começar um tiroteio. Desta forma, conseguimos continuar a viagem sem outros problemas. No percurso, resolvemos improvisar. Em um momento eu disse “tinha quatro otários escondidos na moita. Chegamos e matamos eles, idiotas”. Deste modo, até Silvia, que sabia do plano, começou a achar que estava sendo sequestrada de verdade.

Chegando no local da festa, paramos o carro e dissemos: “desçam e comecem a correr, em cinco segundos vocês podem tirar o capuz. Se tirarem antes ou não correrem, a gente começa a atirar”. Foi isso que elas fizeram. Quando tiraram o capuz, a turma toda começou a cantar parabéns. Carol apenas olhou para trás, com os olhos enfurecidos, e disse: “eu te mato”. No final fomos finalmente apresentados ao primo que fez parte do sequestro e descobrimos que, como ele não achou uma arma de brinquedo, levou uma de verdade mesmo! Ele disse para não nos preocuparmos, pois a pistola estava sem pente. Entretanto, eu tratei de verificar a agulha da semi-automática (ser afilhado de policial te ensinar esse tipo de coisa) e vi que havia sim uma bala.

Foi muita sorte não ter acontecido nada grave. í‰ por isso que eu não recomendo a ninguém que faça algo assim e eu mesmo nunca mais cometi uma loucura como essa. Entretanto, demos muitas risadas, depois que passou o susto.

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